Decorrem, à presente data, seis décadas desde que João Rodrigues Pires, o livreiro-antiquário de O Mundo do Livro (no Largo da Trindade em Lisboa), se iniciou nesta actividade. Tal verificou-se pouco depois de iniciada a Guerra Civil de Espanha.
Como ele próprio hoje recorda, a sua entrada no comércio dos livros ocorreu graças à sua resposta a um anúncio então publicado num dos jornais de Lisboa. Solicitava-se aí um empregado para a livraria de Lourenço de Melo, à altura a funcionar num vão de escada na Rua Garret.

João Pires tinha, nessa época, apenas dezoito anos, pois nascera em Santo Amaro de Oeiras em 8 de Abril de 1919. Tinha no seu espírito a vontade de se dedicar ao comércio do livro, não se esquecendo até do exemplo de um antigo livreiro-editor da família, precisamente o seu avô paterno, Conde José Diogo Perez, que estivera establecido em Coimbra.

A partir de então teve a oportunidade de trabalhar e ganhar experiência neste ramo em livrarias como a Bertrand (nesse período propriedade de Artur Brandão). Voltou de novo à casa Lourenço de Melo e, pouco depois, ingressava na livraria Sá da Costa, onde, recorda, foi o primeiro empregado a ser admitido, na rua Garret.

A experiência que ia adquirindo foi razão preponderante para que, em breve, mudasse uma vez mais, de curta duração dado que voltaria à casa mãe de Lourenço de Melo (o qual já estava establecido na livraria Eclética, na Calçada do Combo).

A sua vontade de trabalhar por conta própria neste ramo levou-o a establecer-se finalmente em 1941 na Rua Nova da Trindade, mais precisamente no vão de escada do edifício onde ainda hoje se conserva a Academia dos Amadores de Música.

Ainda nessas instalações passou a realizar um boletim de divulgação de fundos bibliográficos, tendo por título o nome da sua casa comercial. Tendo o primeiro número sido publicado em letra de forma em Janeiro de 1946, saíram mais quatro outros, todos no mesmo ano.

Em 1946 instalou-se no edifício do Largo da Trindade (onde ainda hoje se encontra). E, no ano seguinte, aquele seu mesmo boletim começou a ser feito em duplicador. Manteve-se nessa situação durante vários anos, desde as décadas de 50 e 60... até à actualidade.

Entretanto em 1951 passou a publicar - de novo pela arte tipográfica - o seu Catálogo de Livros Seleccionados. Deste sairam até 1955 três números, o primeiro e o terceiro com prefácio de Aquilino Ribeiro; e o segundo do Visconde de Lagoa. Pouco depois (nessa mesma década) principiou uma nova série de publicações, o Catálogo geral de livros novos e usados. Deste saíram, até 1970, seis números, o último dos quais apresenta um prefácio de Jorge Peixoto.

Edições fac-similadas de livros raros.

A importância da actividade de João Pires como livreiro-antiquário, ao longo destas seis décadas, rezide no facto de ter vindo a pôr à disposição do público em geral e dos especialistas em particular, fac-símiles de obras da cultura literária e histórica de Portugal, ou de outras nações da Europa, de grande raridade e valor.

A primeira dessas edições foi precisamente as Satyras de Sá de Miranda (fac-símile da edição do Porto, ofic. de João Rodrigues, 1626), em 1958. Já em 1971 publicava nova obra - também ela relativamente desconhecida - as Comédias Portuguesas feitas pello excelente Poeta Simão Machado, onde se apresenta a comédia alusiva ao cerco de Diu (fac-símile da edição de Lisboa, ofic. de Pedro Craebeeck, 1601), com introdução por Claude-Henri Frèches.

Mais de dezena e meia de anos antes desta iniciativa, ou seja no Natal de 1954, João Pires inaugurara uma colecção de pequenos livros impressos, alguns dos quais em fac-símile. Estes destinavam-se, essencialmente, a ofertas aos seus principais clientes na quadra natalícia. A primeira das edições dessa colecção apresentava o trabalho poético de Almeida Garret, Miragaia, com um estudo de Jorge de Faria. O segundo trabalho, de 1955, foi a Balada da Neve de Augusto Gil; e o terceiro, de 1956, o Sonho de uma noite de Natal, de Aquilino Ribeiro, com ilustrações de Bernardo Marques.

Em 1957 e 1958 publicou, respectivamente, os pequenos textos de Fialho de Almeida, O Natal na tristeza de um sem família; e de Baltasar Estaço, Cinco sonetos de Natal de Jesus, ambos com prefácio de João de Castro Osório, a que se sucederam, até 1965, outros textos.

No plano de reconheciemnto internacional desta acção situa-se a atribuição - pelo Presidente da República e do 1ºMinistro de Itália, respectivamente, Saragat e Audo Moro - em 27 de Dezembro de 1965, do Grau de "Cavaleiro da Ordem de Mérito da República Italiana" a este activo livreiro que, ainda hoje (e depois de uma interrupção no plano editorial de vários anos), se manifesta empenhado em continuar também neste domínio.

In Revista Portuguesa de História do Livro, ano I, nº2 - 1997.

 

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